Durante duas horas e dez minutos, o tempo pareceu andar para trás na Praia do Aterro. Na primeira noite do MEO Marés, esta sexta-feira, 17 de julho, milhares de pessoas voltaram aos anos em que os Da Weasel dominavam as rádios, enchiam festivais e, pelo caminho, marcaram toda uma geração. Pelo meio houve nostalgia, festa, discursos, momentos de emoção, uma orquestra de 24 músicos dirigida por Rui Massena e um alinhamento pensado para mostrar que, mesmo depois de tantos anos, a Doninha continua bem viva.
Pontuais, como prometido, às 23h30 as luzes do Palco MEO apagaram-se. O silêncio durou apenas alguns segundos antes de um jogo de luzes percorrer a estrutura do palco, num regresso ao festival três anos depois do memorável concerto de 2023. Desta vez, trouxeram a estreia no Norte do espetáculo sinfónico criado com Rui Massena.
As luzes voltaram a desaparecer. No enorme ecrã surgiu apenas o logótipo dos Da Weasel. À medida que a intensidade da música aumentava, também os músicos ocupavam os respetivos lugares. A tensão transformou-se rapidamente em festa. “Let’s go!”, gritou João Nobre.
Segundos depois arrancava “Adivinha Quem Voltou”. O título não podia ser mais apropriado. “Como é que é, MEO Marés?”, perguntaram os irmãos no final do primeiro tema, recebendo uma resposta ensurdecedora antes de avançarem para “A Essência (Vem Sentir)”.
Sem deixar a energia esmorecer, seguiram para “Toque Toque”. Antes do refrão, desafiaram o recinto a cantar sozinho. O teste foi superado sem dificuldade. “Que maravilha, porra. Agora sim, boa noite, MEO Marés”, agradeceram. “Continuam apaixonados? Vamos ver se continuam apaixonados desde 97.”
O desafio serviu de introdução para “Nunca Me Deixes”. O palco alternava entre tons vermelhos, laranja e branco, enquanto os ecrãs gigantes mostravam imagens do concerto a preto e branco, conferindo uma estética quase cinematográfica ao espetáculo. Havia quem cantasse abraçado, quem fechasse os olhos para reviver memórias e quem descobrisse aquelas músicas pela primeira vez ao lado dos pais.
“Carrossel (Às Vezes Dá-me para Isto)” chegou depois de uma brincadeira sobre dar “mais uma volta ao carrossel do MEO Marés”. A metáfora encaixava na perfeição. O concerto começava a transformar-se numa viagem ao passado, conduzida por uma banda que parecia tão entusiasmada por estar em palco como o público por a voltar a receber. “Quero ver quem tem a maior língua cá. Línguas de fora!”, desafiou Pacman antes de “Dialectos de Ternura”.
Entre gargalhadas, dança e um coro que praticamente abafava as colunas, o tema terminou sob uma enorme ovação. A energia regressou logo de seguida com “O Puro”, interpretada com a mesma intensidade de quem tinha acabado de entrar em palco, apesar de já terem passado mais de 30 minutos desde o início do concerto.
“Obrigado. Eu gosto muito da minha terra, da Margem Sul, mas o público do Norte é lixado. Eu sei, eu sei… obrigado.” A frase foi recebida com nova explosão de aplausos. “Este som não é para a gente da Margem Sul nem do Norte. É para toda a gente.”
Seguiu-se, naturalmente, “Todagente”, numa autêntica viagem até 1997. No relvado misturavam-se várias gerações, mas eram sobretudo aqueles que cresceram ao som da banda que pareciam regressar automaticamente à adolescência.
“Este vai ser o verdadeiro teste. Estão com energia para outro nível?” A resposta chegou ainda antes de começarem os primeiros acordes de “Outro Nível”.
“Tamos cotas, mas ainda mandamos umas, não?”, brincaram os irmãos, arrancando gargalhadas antes de iniciarem “Re-Tratamento”. Foi talvez o tema em que mais se sentiram as diferentes gerações espalhadas pelo recinto.
Mas a grande mudança da noite estava prestes a acontecer. As luzes apagaram-se novamente. Um único foco iluminou Carlão. Os primeiros acordes de “Palavra” ecoaram lentamente pelo recinto. Pela primeira vez desde o início do concerto, a festa deu lugar ao silêncio absoluto.
No fim de cada pausa instrumental, o público respondia apenas com aplausos. Visivelmente emocionado, o vocalista levou a mão ao peito, sorriu e absorveu durante alguns segundos o carinho vindo da plateia. “Façam ouvir outra vez essas palmas para o que aí vem”, pediu. Foi nesse momento que entrou em cena Rui Massena, acompanhado pela orquestra de 24 músicos, para iniciar o segundo ato de um concerto que estava prestes a ganhar uma dimensão completamente diferente.

A entrada de Rui Massena e da orquestra foi recebida com uma longa ovação. O segundo ato do concerto começou de forma completamente diferente da primeira hora. O ambiente de festa deu lugar a um espetáculo mais intimista, onde cada arranjo sinfónico acrescentava uma nova dimensão às músicas.
“Há 20 anos fizemos um concerto em Belém. Ainda há gente com muito brio”, recordou Carlão ao apresentar “(No Princípio Era) O Verbo”. A interpretação sinfónica elevou imediatamente o espetáculo para outro patamar, tornando a experiência mais imersiva e confirmando porque motivo a banda quis recuperar este formato para o único concerto de 2026.
“Esta já não tocamos há décadas. Já nem me lembro”, brincaram antes de recuperarem “Iniciação a uma Vida Banal”, recebida com entusiasmo por um público que parecia conhecer até os temas menos habituais dos alinhamentos da banda.
Pouco depois chegou “Sistema do Sistema”. “Quando esta música foi escrita, o Rui Costa usava o 10 nas costas. Agora já não usa, mas a música mantém-se na mesma. Pela primeira vez, em estreia absoluta no MEO Marés, bora”, anunciaram, arrancando gargalhadas da plateia.
Os arranjos de Rui Massena continuavam a transformar cada tema. Em “Negócios Estrangeiros”, a orquestra intensificou o dramatismo da interpretação, enquanto “Agora e Para Sempre (A Paixão)”, que a banda revelou não tocar desde cerca de 2007, ofereceu um dos momentos mais inesperados da noite. Seguiram-se ainda “Mundos Mudos” e “Força”, tema apresentado depois de Carlão agradecer ao público e ao festival por tornarem possível aquele concerto especial.
Durante largos minutos, o espetáculo deixou de ser apenas um concerto de hip hop para se transformar numa experiência quase sinfónica. Ainda assim, bastaram os primeiros acordes de “Força” para a energia regressar ao recinto. A ovação no final fez-se ouvir muito para lá da frente do palco.
Com “GTA”, a festa voltou definitivamente. O público regressou aos saltos, às danças improvisadas e aos refrões cantados em coro. Rui Massena voltou então ao palco para receber os aplausos ao lado da orquestra e dos Da Weasel. Todos se aproximaram da frente do palco, fizeram uma vénia em conjunto e despediram-se sob uma enorme salva de palmas.
Mas ainda faltava o terceiro e último ato. “Bora lá fazer a puta da revolução”, lançaram antes de um dos momentos mais marcantes da noite.
“MEO Marés, estamos a viver, porventura, os tempos mais retrógrados desde que eu me lembro. Querer pôr a mulher num lugar que não pertence nem nunca pertenceu, racismo… o mundo inteiro está a ir atrás de um discurso populista. Fascistas. Era hora de fazermos a nossa revolução. Coisas pequenas, em casa, na rua, na escola. Façamos cada um a nossa revolução.”
A mensagem foi recebida com aplausos antes de “Pedaço de Arte” devolver toda a intensidade ao concerto. A partir daí, o aviso era claro. “Só para avisar, agora é para partir tudo até ao fim.” E foi exatamente isso que aconteceu.
“Selectah”, “Loja (Canção do Carocho)” e “Niggaz” transformaram novamente o relvado numa enorme pista de dança. A energia parecia inesgotável, tanto em palco como entre o público, apesar de já terem passado quase duas horas desde o início do espetáculo.
Depois de um curto interlúdio eletrónico, acompanhado por um intenso jogo de luzes brancas, anunciaram que o concerto estava prestes a terminar.
“MEO Marés, estamos a chegar ao fim.” Seguiu-se um solo de guitarra, enquanto a banda gritava em uníssono: “Da Weasel está de volta”, provocando mais uma explosão de aplausos. “Palavras para quê? Que noite boa. Muito obrigado”, agradeceram.
“Tás na Boa” foi escolhida para fechar um espetáculo que percorreu praticamente toda a história da banda. No final, os irmãos e os restantes músicos aproximaram-se da frente do palco, abraçaram-se e permaneceram alguns instantes a contemplar a multidão. Do outro lado, milhares de pessoas continuavam a aplaudir, conscientes de que tinham assistido a um concerto irrepetível.
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