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Uma seita religiosa, a versão longa de “Kill Bill” e outras estreias de cinema da semana

A obra de Quentin Tarantino não é uma novidade “Kill Bill”, mas chega agora em formato de maratona (com mais de quatro horas), como o realizador a idealizou.

Longe de ser apenas uma líder sectária, Ann Lee foi uma visionária que desafiou as estruturas de poder da Inglaterra industrial e das colónias americanas, fundando a Sociedade Unida de Crentes na Segunda Aparição de Cristo, mais conhecidos como Shakers. Mona Fastvold, cineasta norueguesa, explora agora o legado desta mulher singular em “O Testamento de Ann Lee”. Entre as estreias nas salas de cinema desta quinta-feira, 12 de março, o filme destaca-se não apenas pelo rigor estético, mas também pela densidade da figura histórica que o inspira.

Nascida em Manchester, em 1736, a vida de Ann começou entre a penumbra do fumo de carvão que alimentava as máquinas a vapor das fábricas têxteis. Numa época em que o destino feminino era ditado pelo matrimónio e pela maternidade, Ann perdeu os seus quatro filhos ainda bebés, um trauma profundo que acabou por determinar a sua teologia. Um dos pilares centrais da doutrina que desenvolveu considerava o ato sexual como “a raiz de todo o mal e do egoísmo humano”, e o celibato absoluto era considerado o único caminho para a pureza espiritual.

Acusada de “profanar o sábado [na época, dia de trabalho] com pregações ruidosas”, Ann foi presa em 1772. Na cela, afirmou ter tido uma visão divina. Cristo teria aparecido para lhe revelar que era a encarnação feminina do espírito de Deus na Terra. Para os seus seguidores, tornou-se a “Mãe Ann”, figura que completava a dualidade divina: se Jesus era o lado masculino, ela era o feminino.

Perseguidos em Inglaterra, Ann e um pequeno grupo de dissidentes religiosos atravessaram o Atlântico, em 1774. Nos Estados Unidos, fundaram comunidades baseadas em princípios disruptivos para a época. Num mundo de desigualdade extrema, praticavam o comunismo utópico: não havia propriedade privada, e homens e mulheres eram considerados rigorosamente iguais perante Deus, partilhando tanto as tarefas como a liderança. Shakers, o nome pelo qual ficaram conhecidos, deriva das danças frenéticas e tremores que manifestavam durante o culto, uma forma de “sacudir o pecado do corpo através do êxtase”.

Uma década após a chegada aos Estados Unidos, em 1784, Ann Lee não resistiu às sequelas das agressões físicas de que foi vítima durante as suas “missões de evangelização”. Apesar do desaparecimento precoce, o seu legado ético e estético, sobreviveu. A premissa que defendia, “a beleza está na utilidade”, é considerada a precursora do design moderno e do minimalismo nórdico. A arquitetura e o mobiliário funcional criado pelos Shakers continuam a ser admirados, bem como os objetos quotidianos que “inventaram”, como a mola da roupa, a vassoura plana ou a serra circular.

“O Testamento de Ann Lee” resgata a vida desta mulher (interpretada pela atriz Amanda Seyfried) que, entre o misticismo e o pragmatismo, tentou construir um paraíso no Novo Mundo. O filme retrata a fundação da comunidade Shaker, baseada em ideais de igualdade radical entre géneros, no celibato e no trabalho manual. Apesar da dureza da sobrevivência e das tensões internas de um coletivo que desafia todas as convenções da época, Ann manteve viva a sua fé e a crença na possibilidade de redesenhar a própria sociedade. 

Esta “integridade doutrinária” foi precisamente o que ditou o destino dos Shakers: as regras que os tornavam únicos, especialmente o celibato, resultaram no seu declínio numérico e consequente desaparecimento. No seu auge, em meados do século XIX, tinham cerca de seis mil membros distribuídos por 19 comunidades prósperas. Contudo, ao contrário de outros grupos radicais (como os Amish), não tinham filhos. A única forma de manter o coletivo era através de conversões externas.

Historicamente, os Shakers acolhiam órfãos, que muitas vezes escolhiam tornar-se membros ao atingir a maioridade. No século XX, as leis de proteção de menores tornaram a adoção quase impossível para comunidades religiosas. A isto juntou-se o crescente desinteresse pela “vida simples e rural” que defendiam.

Atualmente, existe apenas uma única comunidade ativa no mundo: Sabbathday Lake, no Maine (EUA). Após anos a fio com apenas dois membros (o Irmão Arnold Hadd e a Irmã June Carpenter), em 2025, o grupo cresceu com a admissão oficial de uma noviça, a Irmã April Baxter. O trio vive numa quinta histórica com cerca de 650 hectares. Apesar de manterem as tradições de oração e trabalho, não vivem isolados nem “fora do seu tempo”: usam computadores, têm internet e uma loja online onde vendem as caixas de madeira que fabricam e as ervas aromáticas que cultivam.

Embora a comunidade religiosa esteja perto da extinção, os Shakers não veem o seu fim com pessimismo: acreditam que, se a sua forma de vida for necessária ao mundo, Deus enviará novos membros; se não, a sua missão foi cumprida.

O “regresso” de Tarantino e outras estreias

Entre os destaques cinematográficos desta semana, há uma obra, que embora não seja uma estreia absoluta, apresenta-se agora com um formato completamente diferente. Falamos de “Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta”, uma versão monumental de 275 minutos que combina os dois volumes originais numa narrativa contínua, tal como Quentin Tarantino a idealizou. 

A narrativa acompanha A Noiva (Uma Thurman), uma antiga assassina de elite que desperta de um coma de quatro anos após uma traição do seu antigo amante. Bill deixou-a para morrer no dia do casamento, o que motiva uma vingança implacável. A jornada sangrenta leva-a de um continente ao outro, eliminando um a um os membros do seu antigo esquadrão até chegar ao confronto final com o próprio Bill. Esta edição inclui a famosa sequência de animação do Capítulo 3 sem cortes e o icónico combate na Casa das Folhas Azuis totalmente a cores.

Inspirado num artigo de jornal que chocou o Reino Unido, “Jogada de Mestre” conta a história de um jovem carismático, mas falido, que descobre ser o herdeiro ilegítimo de uma das maiores fortunas do setor imobiliário. Realizado por John Patton Ford, o filme conta com o ator Glen Powell no papel principal, Becket Redfellow.

Quando a família oficial o rejeita com desprezo, Becket recorre à sua inteligência e falta de escrúpulos para se infiltrar no círculo social da elite londrina. O que começa como uma tentativa de reconhecimento transforma-se num jogo perigoso de chantagem, sedução e fraude, onde a linha entre a justiça e o crime se torna quase invisível.

Considerada uma adaptação fiel, a preto e branco, do livro homónimo de Albert Camus, “O Estrangeiro”, de François Ozon, decorre na Argélia colonial dos anos 30. O apático Meursault (Benjamin Voisin) é um homem que parece incapaz de sentir as emoções convencionais esperadas pela sociedade.

Após o funeral da mãe, no qual não chora, envolve-se numa série de eventos banais que culminam no assassinato de um homem árabe numa praia ensolarada de Argel.  O filme não examina os meandros do crime cometido, mas o julgamento absurdo que se segue. Meursault não é condenado apenas pelo que fez, mas pelo seu carácter, pela sua honestidade brutal e pela recusa em fingir sentimentos.

A lista de novidades inclui também uma produção de outro realizador francês, “O Mago do Kremlin”, de Olivier Assayas. Baseado no best-seller de Giuliano da Empoli, “Le Mage do Kremlin”, o filme mergulha nos bastidores do poder russo através da figura de Vadim Baranov (interpretado por Paul Dano). Originalmente produtor de televisão e encenador, Baranov torna-se o conselheiro mais próximo do Czar (figura inspirada em Vladimir Putin, encarnada por Jude Law). 

Vadim torna-se o arquiteto do sistema, utilizando técnicas de entretenimento e manipulação mediática para transformar a política num espetáculo de massas. Contudo, ao criar um monstro que detém o controlo absoluto, Baranov percebe que ninguém, nem mesmo o seu criador, está a salvo das engrenagens do Kremlin. Olivier Assayas reuniu um elenco de luxo, que conta ainda com Alicia Vikander e Tom Sturridge.

O rol de novidades inclui ainda o vencedor do prémio ETIC School Award na edição de 2025 do Festival Doclisboa. Mistura entre realidade e ficção, o docudrama “Explode São Paulo, Gil” conta a história de uma empregada doméstica que sonha ser cantora. Gildeana Leonina, mais conhecida como Gil, mudou-se com a mulher para São Paulo aos 20 anos, com o intuito de realizar o desejo de cantar.

O plano de subir aos palcos fica por concretizar, mas Gil sabe que não é “apenas uma faxineira”. É então desafiada por Maria Clara Escobar: a realizadora propõe-lhe contar a sua história. Contudo, a narrativa será tudo menos linear: a cineasta é também patroa de Gil, o que acrescenta várias camadas de complexidade e simbolismo ao projeto de ambas. 

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