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“Como podem achar isto normal?”: a magreza de Lily Collins está a preocupar os fãs

Muitos não conseguem ver "Emily em Paris" por causa da aparência da protagonista. Especialista considera-a "alarmante".
Poderá estar a perpetuar uma doença grave.

“Emily em Paris” estreou em 2020 e é uma das séries mais populares da Netflix. A terceira temporada chegou à plataforma de streaming a 21 de dezembro de 2022 e, desde então, todos os pormenores têm sido minuciosamente escalpelizados pela extensa legião de fãs da produção. Tanto analisam o desenvolvimento da narrativa, como debatem a vida amorosa das personagens ou questionam o guarda-roupa da protagonista.

Apesar de já terem estreado há um mês, os novos episódios continuam a dar muito que falar. Nos últimos dias, o tema mais debatido tem sido a aparência de Lily Collins. “Podem ver-se as costelas”, “não consigo ver a série por causa da protagonista” ou “como podem achar isto normal?” são apenas alguns dos milhares de comentários que criticam a magreza — considerada extrema — da atriz. Muitos apontam que está (ainda) mais magra.

Os distúrbios alimentares da filha do célebre músico Phil Collins não são novidade. A artista escreveu sobre o período em que sofreu de anorexia nervosa e bulimiao livro “Unfiltered: No Shame, No Regrets, Just Me”, publicado em 2017. A recente perda de peso de Lily — visível ao longo das temporadas — está agora a preocupar os fãs que questionam se a atriz terá tido uma recaída.

Uma delas foi mais longe e deixou o seu relato num fórum de discussão entre mães e pais. “Porque é que acham que há tantas miúdas anoréticas? Elas veem personagens assim e pensam que aquilo é normal. Sim, algumas pessoas são naturalmente magras, mas não são a maioria e, ainda assim, são as mais representadas nos media. Tive um distúrbio alimentar quando era mais jovem por causa da pressão que senti para ter aquela aparência, para ser muito magra. E não estava gorda, nem tinha peso a mais”, escreveu.

Para Ângela Rodrigues, psicóloga da Clínica da Mente, a questão é mesmo esta. “Uma coisa é fazer um filme em que se abordam estas temáticas como problemáticas, com o objetivo de chamar a atenção para uma doença — como acontece em “Até aos Ossos”, também protagonizado por Lily. Outra é fazer uma produção na qual se valoriza a magreza extrema enquanto sinal de beleza e de estilo”, explica à NiT a profissional. “Isso é alarmante”, reforça.

Não é que Lily Collins nos tenha habituado a um corpo particularmente diferente. Sempre foi magra, e a aparente perda de peso pode não significar nada. “Ser magro de forma saudável não é questionável. O que está em causa é a mensagem que pode passar aos espetadores, principalmente para oas mais novos que ainda não estão preparados para processarem certas coisas. Isto é, numa fase da vida em que a identidade não está totalmente definida, a autoestima ainda não tem grandes bases, acham que é o normal o que veem — e querem replicar”, continua a psicóloga.

A própria Lily disse, numa entrevista à revista “Harper’s Bazaar”, que quando era mais jovem queria “alcançar essa imagem, que achava que seria a perfeição”. O divórcio dos pais teve um grande impacto na sua vida e, aos 19 anos, quando o pai estava a divorciar-se da terceira mulher — Orianne Cevey, com quem teve os últimos dois filhos — a separação atribulada avivou-lhe as memórias traumáticas de infância.

“A minha vida parecia estar fora de controlo. Não conseguia aguentar a dor e a confusão em torno do novo divórcio do meu pai e estava a ter dificuldades em equilibrar a vida de adolescente com as duas carreiras de adulta [enquanto atriz e modelo] — que se focavam bastante no meu visual”, disse Lily Collins. “Naquela época, estava a lidar com a escola secundária, com os relacionamentos, e queria conseguir controlar algo. Como podia sentir-me no controlo? Bem, monitorizava tudo o que comia e o peso que tinha.”

As diferenças da primeira para a segunda temporada são visíveis.

Numa entrevista mais recente à “Shape” a atriz confessou fazer terapia há vários anos e considera estar num “bom lugar em relaçõ aos hábitos alimentares e à saúde mental”. As recaídas, porém, acontecem. “O processo e o tempo de recuperação de um distúrbio alimentar depende de cada caso”, garante-nos Ângela Rodrigues. “Na sociedade ocidental a pressão para se ser magro é muito forte e, claro, o consequente desejo de o ser também.”

As redes sociais são um dos principais focos de origem deste ideal físico. “Embora vários influenciadores tentem desconstruir esta ideia, a magreza extrema continua a ser muito mais aceite do que a obesidade, que é vista como algo muito pouco atraente.” Esta diferença de perpeção entre dois extremos que deveriam ser igualmente rechaçados reflete o longo caminho que ainda é preciso percorrer em relação este tema, considera a especialista.

A anorexia nervosa é um distúrbio sem uma causa objetiva conhecida (como acontece na obesidade) e atinge três a quatro por cento da população portuguesa — 12,6 por cento dos doentes são adolescentes e 95 por cento são do sexo feminino. “Se olharmos para os dados, verificamos que 38 por cento das miúdas que têm um peso saudável admitem querer perder peso. Isto é preocupante porque tudo começa por aqui”, manifesta a profissional. Mais alarmante é a percentagem de casos em que a doença é fatal: 10 a 20 por cento.

Uma pessoa que sofre de anorexia nervosa tem uma distorção da imagem corporal. “São pacientes que não têm doenças associadas que possam explicar a falta de apetite ou a perda de peso. É como se se olhassem ao espelho e vissem alguém obeso.” Começam, então, a fazer uma restrição alimentar severa que pode ter consequências graves e, no pior dos casos, levar à morte. Os doentes podem atingir um estado de desnutrição que pode levar à falência dos  dos órgãos. “O único objetivo é continuarem a perder peso e passam a controlar tudo o que comem”, explica Ângela. A especialista defende, por isso, uma ação concertada, com o envolvimento da família, para ajudar o doente a alterar a sua dieta.

Quais são os sinais de alerta?

Um dos sinais mais observáveis consiste na perda de massa corporal, porém, o paciente não reconhece que está muito abaixo do peso que é suposto para a sua idade e índice corporal e não se apercebe da sua magreza extrema.

Muitas vezes, são pessoas que apresentam pensamentos obsessivos, pesam-se frequentemente e medem partes do corpo compulsivamente. “Normalmente, têm baixa autoestima, não se sentem bem com o seu corpo e têm uma necessidade de controlo.” Podem fazer uma mudança repentina no comportamento, passando a contar calorias e a seguir uma dieta rigorosa de um dia para o outro. A irritabilidade, a dificuldade em dormir, e a amenorreia (a ausência de menstruação) são alguns dos primeiros sintomas da anorexia.

Entendida muitas vezes como uma boa atitude, isto é, a de alguém que quer melhorar ou sentir-se bem consigo mesmo, estas alterações de comportamento podem passar despercebidas. Ainda assim, quando há um emagrecimento muito acentuado, é necessária uma maior atenção.

Para ajudar as pessoas que sofrem de anorexia, é preciso que primeiro estas admitam que têm um problema que lhe controla a vida, retira liberdade e pode levar a erros nutricionais cujo resultado é o oposto do desejado. “Quando o problema é percecionado pelo próprio, a procura de ajuda junto do médico não deve ser adiada — deve ser o primeiro passo. Pode ir ao centro de saúde, a uma consulta de psicologia ou de psiquiatria, o importante é fazê-lo e será encaminhado da melhor forma.”

O processo terapêutico requer uma intervenção multidisciplinar, com acompanhamento de um nutricionista, um psiquiatra e de um clínico geral, mas o tratamento dependerá sempre de cada caso.

Aproveite para ler o artigo sobre como a relação difícil com o pai Phil Collins marcou Lily Collins, a protagonista de “Emily em Paris”.

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