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Esta app criada por um portuense ajuda a explorar mais de 850 locais abandonados pelo País

O interesse pela exploração urbana levou a João a criar a URBEXPLORE, uma aplicação que organiza, valida e protege locais abandonados.

Entrar em fábricas desativadas, linhas férreas abandonadas e palacetes em ruínas é um trabalho de exploração habitual para João Barbosa Coelho, fascinado pela descoberta de locais inexplorados. Foi essa paixão que o levou a criar a URBEXPLORE, uma nova app – disponível para iOS e Android – que ajuda a compilar e sistematizar os locais que visita (e que quer visitar), para facilitar a tarefa de todos os que querem explorar por conta própria.

Natural do Porto, o jovem de 24 anos passou a infância entre a capital do norte e Rebordosa, onde tem raízes familiares. Sempre gostou de andar a pé pela cidade, muitas vezes sem destino definido. “Perder-me por becos do Porto ajudou-me a desenvolver curiosidade por espaços esquecidos”, explica. Durante anos, João usou o Google Maps para guardar localizações de edifícios abandonados. Eram apenas coordenadas num mapa. Faltava informação histórica. Faltavam alertas de risco. Faltava contexto. “Quando partilhava esses pontos com amigos, percebia que não chegava”, recorda.

O fascínio pela exploração urbana ficou para segundo plano enquanto decidia que rumo profissional tomar. O percurso académico não foi linear. Antes de entrar em Engenharia Informática, trabalhou em oficinas CNC, atendimento ao público e restauração. Queria ser financeiramente independente cedo. “Preferi trabalhar primeiro para não sobrecarregar os meus pais”, diz. Hoje frequenta a licenciatura em Engenharia Informática na ESTG do Politécnico do Porto, com especialização em cibersegurança.

Foi daí que nasceu a URBEXPLORE. A ideia era criar uma ferramenta pensada para ser usada no terreno. Um website não resolvia o problema, já que a exploração acontece normalmente de telemóvel na mão. João decidiu aprender a programar aplicações móveis para poder criar uma solução de raiz.

Esse processo começou no verão de 2024, durante as férias da faculdade. Aprendeu de forma autodidata, num ciclo constante de tentativa e erro, e contou com o apoio inicial de João Oliveira, colega da ESTG, sobretudo na definição da estrutura técnica, segurança e boas práticas de desenvolvimento.

 
 
 
 
 
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O primeiro passo foi um mapa simples. O Porto funcionou como ponto de partida e laboratório. Antigas linhas ferroviárias, fábricas desativadas, armazéns e estruturas industriais fazem parte da memória urbana da região. A partir daí, começou a construir uma base de dados organizada. Cada local passou a incluir fotografias, descrição, estado de conservação, acessos e alertas de risco, isto apesar de a aplicação não ter como objetivo incentivar entradas ilegais. A prioridade foi sempre informar e contextualizar. “Eu não via apenas ruínas. Via património”, defende João.

Com o tempo, o projeto ganhou escala e o mapa inicial evoluiu para uma plataforma mais robusta. Antes do lançamento oficial, em outubro de 2025, quase 200 pessoas inscreveram-se para testar a versão inicial.

Poucos meses depois, a URBEXPLORE conta com cerca de 2.500 utilizadores ativos e uma base de dados validada com mais de 850 locais abandonados em Portugal Continental, Açores e Madeira. A validação é toda feita de forma manual e cada local passa por vários filtros, da confirmação do abandono, ao cruzamento com notícias públicas e avaliação de risco estrutural. Se houver dúvidas, o local não é publicado.

A aplicação está disponível para iOS e Android e tem um custo de 2€, pago uma única vez. Após esse acesso, todos os utilizadores podem usar as funcionalidades base. Inclui locais classificados como Bronze e Prata, que correspondem a espaços mais conhecidos, com menor risco estrutural ou maior exposição pública. Inclui também um mapa interativo básico, sistema de XP e níveis e estatísticas pessoais.

Existe ainda uma versão Premium, ativada através de um donativo único, definido pelo próprio utilizador, sem valor mínimo. Além das funcionalidades base, dá acesso a locais Platina e Diamante, filtros avançados, suporte prioritário e uma tag especial no Discord.

Os locais Platina e Diamante correspondem a espaços mais sensíveis, mais bem conservados ou com maior valor histórico. O acesso é limitado para reduzir riscos de vandalismo e exposição excessiva. “Funciona como um filtro de responsabilidade”, explica João. “Quem investe tende a respeitar mais.”

O criador da aplicação.

Em janeiro de 2026, foi lançada a versão 2.0 da aplicação, para respeitar o crescimento da comunidade que mostrou que a URBEXPLORE já não era apenas um mapa mas um espaço de partilha. A nova versão introduz funcionalidades sociais, perfis públicos e privados, publicações, comentários, sistema de amizades e um mapa 3D mais detalhado.

A comunidade organiza-se sobretudo através do Discord, que reúne mais de 900 utilizadores ativos. É ali que são partilhados alertas, feedback técnico, dúvidas sobre locais e boas práticas de exploração urbana. Alguns membros mais experientes ajudam a validar novos espaços e a moderar conteúdos. “Sem a comunidade, a aplicação não teria crescido desta forma”, admite.

Durante um roteiro pelo Porto e arredores, João aponta vários locais que marcaram o projeto. O Ramal da Alfândega III, antiga linha ferroviária de mercadorias do século XIX, é o grande destaque. Ao lado, a Ponte Dona Maria Pia, construída por Gustave Eiffel e desativada em 1991, é um ícone de engenharia e abandono industrial. Ainda fora do centro, destaca locais como o Sanatório de Montalto, as Minas de São Pedro de Cova ou o Cemitério de Máquinas a Vapor nas Devesas.

“Muitos destes locais estão protegidos ou acessíveis apenas através da versão Premium da URBEXPLORE, justamente para evitar vandalismo e garantir respeito. Mas claro, o Porto tem dezenas de outros pontos, desde fábricas, antigos cais e estações ferroviárias até casas e armazéns esquecidos, que oferecem descobertas incríveis a cada esquina”, reforça.

O futuro passa por consolidar Portugal, reforçar o interior e aprofundar a base de dados. João quer que a aplicação seja reconhecida também por entidades culturais e patrimoniais, sem perder a essência. “Quero que a URBEXPLORE continue com alma nortenha. Autêntica, resiliente e com os pés bem assentes nas pedras das cidades.”

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