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“Fim do mundo”: como era a vida em Portugal durante a época d’”A Odisseia”

No final da Idade do Bronze, a região portuguesa era habitada por diferentes grupos que viviam com o "ideal de guerreiro".

Grupos pequenos, ligados à agricultura, mas ligeiramente contaminados pelo ideal de guerreiro da altura. Era assim que funcionava o território português durante o período histórico que abrange “A Odisseia”, obra escrita por Homero que, em julho deste ano, ganhou uma adaptação cinematográfica realizada por Christopher Nolan.

Falamos do final da Idade do Bronze, mais concretamente entre os séculos XI e XII a.C.. Naquela altura, enquanto Ulisses andava perdido no mar, o território português estava ocupado por diferentes grupos, espalhados de norte a sul.

Em conversa com a NiT, Elisa Sousa, especialista da Idade do Ferro em Portugal e professora da Faculdade de Letras de Lisboa, explica que a falta de fontes escritas dessa época dificulta o estudo dos grupos que por cá viviam. “Estávamos no fim do mundo, basicamente. Ninguém escrevia sobre nós”.

Tudo o que se sabe sobre esse período baseia-se, sobretudo, na arqueologia e em vestígios da chamada proto-história, ou seja, o período de transição entre a pré-história e a história escrita.

“Sabemos que são comunidades de pequena ou média dimensão. Portanto, estamos a falar de grupos com um máximo de 300 indivíduos, que são muito heterogéneos entre si. No fundo, aquilo que se passa no interior de Portugal não é a mesma coisa que se passa na Estremadura ou no Algarve”, começa por explicar.

No entanto, apesar das diferenças entre os grupos, a arqueóloga aponta que existia uma série de características comuns que todos partilhavam: as economias essencialmente agropecuárias. “Eram agricultores e pastores que exploravam o território à procura da sua autossuficiência”.

Ainda assim, embora vivessem uma vida maioritariamente isolada, no final da Idade do Bronze, começaram a receber influências do Atlântico e do Mediterrâneo. Nesta altura, a arqueóloga reflete que “chegam algumas características que podem ter alguns ecos n’A Odisseia”, nomeadamente aquilo que se conhece por ideal do guerreiro.

“A circulação de armas feitas de bronze e até algum equipamento defensivo parece que começa a circular dentro destes grupos”, diz. “Não sabemos exatamente em que modo, mas eram objetos como espadas, pontas de lança e escudos.”

Estes objetos eram representados, sobretudo, através das estelas de guerreiro, grandes pedras gravadas com imagens de armas e, por vezes, de guerreiros. Muitos deles estavam também ligados aos hábitos alimentares destas comunidades.

Com uma dieta composta maioritariamente por cereais e pela carne dos animais que criavam, os grupos começaram também a integrar estes objetos, vindos do mundo exterior, no seu dia a dia. Elisa Sousa refere que existem registos de outro tipo de artefactos relacionados com a alimentação. 

“Aparecem uns espetos de bronze e também fragmentos de caldeirões de bronze, que parecem indicar que, entre estas várias ideias que chegam do Atlântico e do Mediterrâneo, uma delas era as cerimónias comunitárias onde se comia carne assada e cozida, com este tipo de instrumentos específicos”, aponta a especialista.

Atualmente, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, está guardada uma Estela de Ervidel, que remonta ao final da Idade do Bronze e ao início da Idade do Ferro.

A vida no território e o contacto com o mundo lá fora

Embora não existam muitos registos sobre os conflitos internos que decorriam no território nesta altura, a arqueóloga sublinha que é seguro afirmar que estes existiram, de facto. Como eram comunidades relativamente pequenas, precisavam de contactar e misturar-se umas com as outras, para evitar problemas associados à endogamia (a reprodução dentro de um grupo muito fechado).

“Estas comunidades têm sempre relações umas com as outras, que podem ser mais ou menos amigáveis, pactos de hospitalidade e disputas territoriais”, refere à NiT.

Os grupos viviam espalhados por todo o território português, mas as concentrações mais evidentes surgem no interior, na zona das Beiras. “Não é por coincidência, mas sim porque são as zonas ricas em estanho”, explica.

A região da Estremadura tinha também uma população considerável, sobretudo por ser a zona que permitia o acesso ao interior rico em estanho.

Este material, utilizado para a criação do bronze juntamente com o cobre, revelou-se essencial para a intensificação do contacto destes grupos em território português com o exterior. Por volta de 1200 a.C., o Mediterrâneo Oriental atravessou uma grande crise que levou ao colapso de várias civilizações importantes, incluindo os reinos micénicos, associados às histórias d’ “A Ilíada” e d’ “A Odisseia”.

Antes da crise, estas sociedades eram altamente organizadas e controlavam de forma centralizada a economia, o comércio e a produção de armas e objetos de prestígio em bronze. E, como o bronze era feito a partir de cobre e estanho, o acesso a estas matérias-primas revelava-se fundamental.

No entanto, com a instabilidade política e o enfraquecimento de grandes impérios da região, algumas das rotas tradicionais de abastecimento de estanho terão ficado comprometidas. Perante esta dificuldade, os comerciantes procuraram novas fontes deste metal essencial.

A Península Ibérica, rica em estanho, tornou-se então um destino estratégico, obrigando os navegadores a atravessar praticamente todo o Mediterrâneo até chegarem ao Atlântico. Segundo esta teoria académica, terá sido a procura de matérias-primas que ajudou a integrar o território que é hoje Portugal nas redes da época, ligando-o indiretamente ao mundo que inspirou os poemas de Homero.

“Não lhe chamamos rotas comerciais porque isso implica estabilidade. E o que acontecia nesta região era algo mais esporádico”, sublinha. “Portanto, eram viagens exploratórias em que sabiam que estes recursos existiam, mas não os exploravam de forma sistemática.”

A arqueóloga acrescenta que estes contactos eram realizados, sobretudo, com populações das zonas da Sardenha e da Sicília, em Itália, e, provavelmente, com o Egeu. “Existiam estes grupos que se movimentavam e que começavam a explorar estas rotas e traziam com eles ideias e objetos que eram integrados por estas populações da Península Ibérica e, mais concretamente, de Portugal”.

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