fora de casa
ROCKWATTLET'S ROCK

fora de casa

Fotógrafo portuense usou inteligência artificial para criar jogo sobre memórias

“Tales of Light” foi feito num fim de semana e reflete a experiência de Ricardo Silva enquanto fotógrafo e pai.

Ricardo Silva passou mais de uma década a fotografar, literalmente, tudo. Agora, essa experiência deu origem a um escape criativo incomum, um jogo chamado “Tales of Light”, lançado a 31 de março, que desafia os jogadores a recolher fotografias perdidas.

O fotógrafo de família portuense tem 39 anos e construiu o seu trabalho precisamente em torno dessa ideia: guardar momentos antes que eles desapareçam. “A fotografia deixou de ser só um registo quando percebi que estava a congelar momentos que nunca mais iam voltar. Não foi uma descoberta bonita, foi quase desconfortável”, conta. Foi essa consciência que deu origem ao conceito que hoje define o seu trabalho.  “Percebi que não estava só a fotografar. Estava a guardar versões das pessoas que já não existem hoje.”

A fotografia não foi a primeira escolha profissional. Estudou Psicologia, área que ainda hoje o interessa, mas acabou por não seguir carreira. Passou por vários trabalhos até decidir tentar ser piloto de linha aérea. Entrou num curso de aviação na Maia, teve bons resultados e acumulou dezenas de horas de voo. A mudança aconteceu em 2012.

Para conseguir pagar o curso, foi trabalhar para a Alemanha e deixou a mulher e a filha em Portugal. Foi aí que tudo mudou. “Estar longe da minha família fez-me questionar o caminho que estava a seguir. A fotografia já era uma paixão séria e percebi que fazia mais sentido arriscar aí.” Voltou a Portugal em setembro desse ano e tomou uma decisão: dar três meses à fotografia, para ver se resultava. “Foi um risco grande, meio calculado e meio loucura. Mas sabia que, se não tentasse, ia arrepender-me.”

Como em muitos percursos independentes, houve dúvidas, sobretudo quando começou a cobrar por um trabalho ainda em construção. A consistência acabou por fazer a diferença e, ao longo dos anos, foi consolidando um posicionamento muito específico: fotografar famílias a partir do ponto de vista das crianças. “Fotografar o mundo pelos olhos de uma criança é um compromisso. Significa não forçar, não interromper, não corrigir constantemente. É aceitar o caos e o momento que não estava planeado.”

O negócio cresceu com base nessa identidade. As sessões são pensadas como experiências naturais, sem encenação rígida, e têm atraído muitas famílias que procuram precisamente esse tipo de registo mais espontâneo. Os preços variam consoante o tipo de sessão e formato final, mas seguem uma lógica de serviço personalizado, focado na criação de um arquivo familiar com valor a longo prazo.

jogo
Uma imagem do jogo

Foi a partir desse trabalho contínuo com memórias que surgiu a ideia de criar um jogo. Não é recente. “A ideia já existia há três ou quatro anos, mas na altura não era viável.” A oportunidade apareceu com a evolução da inteligência artificial. Num fim de semana, decidiu testar até onde conseguia ir. Desenvolveu o jogo sozinho, sem equipa e praticamente sem custos. “Há dois ou três anos, fazer algo assim custaria facilmente 10 a 12 mil euros e levaria meses. Hoje consegui fazê-lo em pouco mais de um dia.”

Recorreu a várias ferramentas de IA ao longo do processo. Usou o Claude, da Anthropic, como base para programação, e outras soluções para animações e música. “Eu era o maestro e a IA a orquestra. Dava as indicações e ia afinando até chegar ao resultado.”

O resultado é “Tales of Light”, um jogo simples, gratuito e acessível diretamente no navegador, sem necessidade de instalação. Pode ser jogado em qualquer telemóvel e baseia-se numa mecânica na qual o jogador controla um menino com um avião de papel e tem de recolher fotografias espalhadas pelo cenário, evitando obstáculos.

A narrativa acompanha essa lógica. As imagens representam memórias que estão a desaparecer e que precisam de ser recuperadas. A inspiração vem da própria experiência enquanto pai e fotógrafo. “Usei o gaming como uma forma lúdica de passar uma mensagem sobre a importância de guardar as memórias da nossa vida.”

O jogo inclui diferentes níveis, sistema de pontuação, power-ups e cenários distintos, como jardim, praia e ambiente natalício. Cada fotografia recolhida vale pontos e permite avançar no jogo. Há também elementos de risco, como nuvens que retiram vidas ao jogador.

Apesar da componente técnica, o objetivo não é competir com jogos comerciais. O foco está na experiência e na ideia que transmite. “Se as pessoas passarem alguns minutos a jogar e ficarem com a sensação de que guardar memórias é importante, já valeu a pena.”

O projeto reforçou uma ideia que já fazia parte do seu trabalho. “Tudo é temporário e está sempre a desaparecer. A infância não avisa quando acaba. Os momentos não se repetem. O que fica é aquilo que foi guardado.” Antes de lançar o jogo, Ricardo Silva mostrou-o aos filhos, hoje com 15 e 11 anos. “Acharam engraçado, jogaram uma ou duas vezes e seguiram para outra coisa.”

Para já, “Tales of Light” funciona como um protótipo no percurso de Ricardo Silva. Não há ainda planos fechados para o futuro, mas a possibilidade de evoluir o conceito está em cima da mesa. “Gostava de desenvolver esta ideia para algo mais completo e ambicioso. Pode ser o início de um projeto maior.”

Mesmo que isso aconteça, a base mantém-se. A fotografia continua a ser o centro de tudo, agora com novas formas de expressão. “Pode parecer algo completamente novo, mas a memória e a emoção estão sempre presentes.”

Pode ainda acompanhar o trabalho do fotógrafo online ou nas redes sociais.

ARTIGOS RECOMENDADOS