Quando terminou a universidade, há cerca de três anos, Maria Cardoso percebeu que fazer novos amigos já não era tão fácil como antes. Os corredores, as aulas e os trabalhos de grupo tinham deixado de fazer parte da rotina e, na vida adulta, parecia-lhe que quase toda a gente já tinha o seu grupo de amigos. Aos 27 anos, a jovem natural de Guimarães decidiu criar no Porto aquilo que não conseguia encontrar, isto é, uma comunidade onde fosse possível chegar sozinha e sair com novas amizades.
Foi assim que nasceu, no verão de 2025, a Matcha Lata, um projeto que junta jovens à volta de uma mesa de café, mas também em workshops, aulas de pilates, sessões de surf, brunches e cocktails depois do trabalho. A maioria das atividades acontece no Porto, embora Maria já tenha organizado alguns encontros em Guimarães, cidade onde nasceu e continua a viver.
Maria trabalha na área do marketing e foi através da organização de eventos corporativos que descobriu que gostava mesmo era de “criar experiências”. A ideia de formar uma comunidade surgiu também de uma necessidade pessoal; apesar de sempre ter tido muitos amigos, grande parte deles eram homens e sentia falta de um grupo feminino.
“Senti alguma falta de uma comunidade feminina e de ter mais oportunidades para conhecer outras mulheres de forma natural”, conta à New in Porto. Quando procurou alternativas nas redes sociais, encontrou sobretudo clubes de corrida, uma modalidade de que não gosta, ou comunidades que exigiam o pagamento de uma inscrição. Nenhuma tinha o ambiente simples e acessível que procurava, por isso decidiu criar a sua própria.
O nome foi inspirado em comunidades internacionais que usavam o café como pretexto para juntar desconhecidos. Maria não gosta de café, mas é “completamente apaixonada por matcha”, uma bebida que também começava a ganhar popularidade. Já a palavra “Lata” surgiu de um trocadilho com “matcha latte” e deu ao projeto uma identidade mais descontraída.
Apesar do nome, não é preciso gostar da bebida verde para participar. O matcha funciona como símbolo e ponto de partida, sobretudo nos encontros em cafés, mas não dita a programação. “Já fizemos aulas de surf, workshops e outros eventos em que não havia matcha nenhum. Aliás, há várias meninas que vêm aos eventos e nem sequer bebem, o que é perfeitamente permitido.”
O primeiro teste aconteceu a 7 de junho de 2025, no Kiwa, um dos espaços preferidos de Maria para beber matcha no Porto. Convidou oito jovens e não divulgou o encontro nas redes sociais. Até ao último momento, receou que ninguém aparecesse, mas todas compareceram. No final, percebeu que as participantes partilhavam a mesma dificuldade e que aos 20 e poucos anos, fazer novas amizades parecia cada vez mais complicado.

“Foi aí que percebi que aquilo que eu achava que era um problema meu era, na verdade, uma coisa que muitas outras pessoas também sentiam”, recorda. Poucos dias depois, a 19 de junho, realizou-se o primeiro encontro aberto ao público, no Lu’kat. Os 12 lugares anunciados nas redes sociais ficaram preenchidos, o que confirmou que havia espaço para a comunidade crescer.
Desde então, a Matcha Lata já experimentou vários formatos, mas os encontros informais em cafés continuam a ser os mais frequentes. Nestes eventos, cada pessoa paga apenas aquilo que consumir e a escolha dos locais também procura apoiar negócios locais e dar a conhecer novos espaços no Porto. Para receber o grupo, o estabelecimento deve ser agradável, ter capacidade para pelo menos seis a oito pessoas e, sempre que possível, servir matcha.
A programação inclui ainda workshops criativos, brunches, pilates e surf. No início de setembro, com o regresso à rotina, chegaram os “Cocktails After Work”, encontros pensados para recuperar o hábito de beber um copo e conversar depois do trabalho. Maria tenta organizar pelo menos dois eventos por mês, embora já tenha chegado aos cinco.
A comunidade destina-se sobretudo a jovens adultos entre os 18 e os 35 anos e está também aberta a homens da comunidade LGBT+, sendo que a experiência revela que a maioria dos participantes tem entre 20 e 25 anos.
Os eventos são anunciados na página de Instagram da Matcha Lata e para participar, basta enviar uma mensagem privada depois da publicação. Os lugares são atribuídos por ordem de chegada e o número de participantes depende da atividade, que pode variar entre seis e cerca de 30 pessoas. A maioria dos encontros é gratuita e quando há despesas com materiais, professores ou outros recursos, o valor cobrado serve apenas para as cobrir.
“Já há coisas suficientes caras hoje em dia e não queria que alguém tivesse de gastar muito dinheiro para ir conhecer pessoas que nem sabe ainda se vai gostar”, explica. A Matcha Lata continua a ser um hobby que Maria concilia com o trabalho e não gera lucro.
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Quem aparece sozinho também não tem de passar por exercícios formais de apresentação. Maria prefere receber cada pessoa, puxar conversa a partir de interesses comuns e, quando faz sentido, aproximar participantes que acredita terem personalidades compatíveis. A vontade de conhecer pessoas faz o resto. “Ninguém precisa de chegar já a conhecer alguém para se sentir incluída.”
Ao longo do primeiro ano, centenas de jovens passaram pelos encontros e vários deles esgotam pouco depois de serem anunciados. Algumas amizades continuaram fora das atividades e houve até um grupo de participantes que acabou por viajar em conjunto. A própria Maria também fez amizades próximas através do projeto.
Nos próximos meses, estão previstos jantares de grupo, workshops criativos e colaborações com criadoras de conteúdo. O próximo “Cocktails After Work” está marcado para 25 de setembro, às 18h30, no Sede, no Porto, e a participação é gratuita. As novidades e inscrições são anunciadas no Instagram da comunidade.
Apesar dos pedidos para levar a Matcha Lata a Lisboa e a outras cidades, Maria prefere avançar devagar. “Uma das coisas mais importantes para mim é conseguir manter a comunidade próxima e conhecer as pessoas que fazem parte dela.” Por enquanto, o crescimento continuará concentrado no Porto e em alguns encontros em Guimarães, sem perder a simplicidade com que tudo começou: sentar desconhecidos à mesma mesa e deixar a conversa acontecer.
Carregue na galeria para espreitar os encontros que já marcaram a Matcha Lata.







