De um dia para o outro, fecharam-se as portas, suspenderam-se as reservas e os hóspedes tiveram de interromper as estadias. Em setembro de 2025, a Maison Bleue desapareceu do mapa de forma tão inesperada que até a equipa do restaurante foi apanhada de surpresa. As razões concretas para a rutura nunca chegaram a ser esclarecidas e, durante vários meses, o futuro do edifício do final do século XIX ficou em aberto.
Agora, as portas voltaram a abrir. A 23 de julho, a antiga Maison Bleue regressou com outro nome, uma nova gestão e um conceito reformulado agora sob a gestão de um novo grupo. Chama-se Torel Private Collection e é o quinto hotel da marca no Porto, um cinco estrelas apenas para adultos com 16 quartos e suites, mais de 300 obras na coleção dos proprietários e o Douro à vista.
O edifício da Rua da Restauração recebeu os primeiros hóspedes em setembro de 2023, então sob o nome Maison Bleue. O projeto nasceu da vontade do proprietário – que prefere manter-se no anonimato – de criar uma galeria de arte no Porto. Depois de comprar parte da casa, percebeu o potencial do imóvel, associou-se a um segundo investidor e adquiriu a restante propriedade para a transformar numa guesthouse de luxo. A condição era que a arte continuasse a ocupar o papel principal.
A propriedade do imóvel mantém-se nas mesmas mãos desde essa primeira fase. O que mudou ao longo dos últimos anos foram as entidades responsáveis pela exploração do alojamento e dos espaços gastronómicos. A Maison Bleue abriu com pouco mais de dez quartos, quase todos voltados para o Douro, e com um restaurante que foi batizado de Basquiat e juntava cozinha portuguesa e mediterrânica numa homenagem ao artista norte-americano Jean-Michel Basquiat. O espaço viria a encerrar alguns meses depois.
Em março de 2025, foi a vez do grupo Vila Foz assumir a exploração do alojamento e o antigo Basquiat deu então lugar ao Restart by Vila Foz, restaurante liderado por Arnaldo Azevedo, chef distinguido com uma estrela Michelin. A ligação entre o grupo e a Maison Bleue durou apenas seis meses e terminou de forma abrupta a 17 de setembro.
Nesse dia, foi o Vila Foz que anunciou que deixava de ter qualquer ligação ao projeto por “razões externas ao grupo” e confirmou também o encerramento definitivo do restaurante. Segundo Arnaldo Azevedo explicou na altura à NiT, a decisão foi comunicada ao chef e à equipa no próprio dia, o que terá apanhado os responsáveis de surpresa. “Aconteceu de um dia para o outro e tivemos mesmo de fechar”, afirmou.
As reservas foram imediatamente suspensas e os hóspedes que se encontravam na Maison Bleue tiveram de interromper a estadia naquela unidade. O grupo garantiu que todos foram informados e terminaram a experiência “sem constrangimentos”. Os motivos que estiveram na origem dessa rutura repentina nunca foram revelados, apesar dos inúmeros contactos para esclarecer o sucedido.
Neste regresso, os responsáveis recusaram novamente revelar o que esteve na origem do encerramento temporário. Certo é que nada impediu que o edifício implantado em local privilegiado na Rua da Restauração reabrisse, agora sob gestão da Torel Boutiques. “Vimos nesta propriedade uma oportunidade única para preservar o seu carácter histórico enquanto lhe dávamos uma nova vida sob a identidade Torel Private Collection”, explica à New in Porto Ingrid Koeck, sócia e porta-voz do grupo.
A empresa também não revelou os termos do acordo de exploração nem o investimento realizado na transformação da antiga Maison Bleue num hotel de cinco estrelas. Sabe-se, contudo, que foram acrescentados quartos, elevando o total para 16, e que o conceito hoteleiro, a experiência gastronómica e parte dos espaços foram reformulados.
O edifício distribui-se por duas construções contíguas. A receção e alguns quartos ficam no piso de entrada, enquanto os pisos superiores concentram oito quartos e suites. No piso -1 existem outras três unidades mais resguardadas e uma copa de serviço, criada para permitir uma resposta rápida às necessidades dos hóspedes.
Cada quarto foi associado a um estado de espírito. Onírico, Minimal, Conceptual, Introspetivo, Naif, Sensorial, Contemporâneo, Subtil, Etéreo, Imersivo, Disruptivo e Provocador. A base decorativa mantém-se elegante e contemporânea, com tons neutros, madeira, tecidos confortáveis, luz natural e apontamentos de verde, azul e rosa.
As unidades Disruptivo e Provocador, situadas no piso -3, assumem um registo mais exclusivo. Uma dispõe de banheira e outra de jacuzzi voltado para o Douro. O grupo prepara ainda uma nova suite com um terraço privado diante do rio, jacuzzi, ginásio e sauna.
A arte já era protagonista na Maison Bleue, mas passa agora a seguir uma curadoria mais ampla. O proprietário reúne mais de 300 obras originais, das quais entre 30 e 40 estarão expostas em simultâneo, com rotatividade regular entre nomes como Anselm Kiefer, Armanda Passos, Helena Almeida, José Pedro Croft, Julian Opie, Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes e Takashi Murakami.
Quadros, esculturas e instalações surgem nos quartos, corredores, escadas e zonas comuns, com uma iluminação concebida para manter as peças em destaque durante a noite. No piso -4 será ainda inaugurada uma galeria destinada a receber parte da coleção permanente e exposições temporárias.
Embora fique a poucos metros do Torel Avantgarde, o novo hotel procura oferecer uma experiência diferente. “A principal diferença reside na experiência proporcionada ao hóspede: o Torel Private Collection, com apenas 16 quartos, foi concebido para oferecer uma estadia mais intimista e exclusiva”, refere Ingrid Koeck.
O Avantgarde tem cerca de 60 quartos, restaurante e spa, enquanto a nova unidade aposta numa escala reduzida, na privacidade e na possibilidade de reservar o espaço em exclusivo. Há estacionamento privado e são aceites animais até dez quilos, mediante uma taxa de 65€ por noite. Os valores variam consoante a data e a categoria, sendo que é possível encontrar, via Booking, quartos a partir dos 220€.
A gastronomia ocupa o piso -2. É ali que funciona o Kanjiru, um restaurante japonês com 22 lugares, todos distribuídos por um grande balcão feito à medida. Não existem mesas tradicionais. Os clientes acompanham diretamente o trabalho dos cozinheiros durante uma experiência omakase.
O conceito do restaurante do hotel foi desenvolvido por Vítor Matos, o chef português com mais estrelas Michelin conquistadas (seis, ao todo), enquanto João Rocha assume a operação diária. O espaço, criado por Isabel Sá Nogueira, combina madeiras naturais, dourados, verdes-azeitona, preto, papel de parede de inspiração oriental e elementos ripados com iluminação. “O conceito inspira-se na filosofia japonesa de omakase, privilegiando um menu de degustação que valoriza os melhores ingredientes sazonais e a criatividade da equipa de cozinha”, explica Ingrid.
Há dois menus. O Dentõ to Kakusshin, centrado na relação entre tradição e inovação, custa 155€. O Ai-Jō, construído em torno das ideias de harmonia, afeto e dedicação, fica por 220€. As harmonizações começam nos 75€, na seleção de águas, e podem chegar aos 360€ na opção de champanhes.
Natural de Vila Real, Vítor Matos formou-se em cozinha e pastelaria na Suíça e regressou depois a Portugal, onde passou por diferentes hotéis e restaurantes. Em 2010 conquistou uma estrela Michelin no Largo do Paço, em Amarante. Seguiram-se projetos como o Antiqvvm, atualmente distinguido com duas estrelas, o Blind, o Oculto, o 2Monkeys e o Schistó, que ajudaram a torná-lo num dos chefs portugueses com mais distinções atribuídas pelo guia.
A experiência gastronómica prolonga-se pelo Kanjiru Bar, aberto durante todo o ano a hóspedes e clientes externos, com entrada independente através de um elevador panorâmico. A carta inclui cocktails de autor, vinhos, cafetaria e refeições leves. Já o pequeno-almoço pode ser servido na Private Room, com oito mesas, no quarto ou, sempre que possível, na varanda sobre o Douro.
Com esta abertura, a Torel Boutiques passa a contar com nove unidades em Portugal. Além dos cinco hotéis no Porto – Avantgarde, 1884 Suites & Apartments, Palace Porto, Saboaria e Private Collection –, o grupo está presente em Lisboa, no Douro, em Guimarães e na ilha Terceira. A estratégia tem passado pela recuperação de edifícios históricos e pela criação de uma narrativa diferente para cada morada. Neste caso, a antiga guesthouse transformou-se numa “galeria habitada”, onde a vista, o recolhimento e a coleção privada tentam fazer com que cada estadia pareça uma visita à casa de um colecionador.
Carregue na galeria para conhecer a nova vida do antigo Maison Bleue.







