Não é todos os dias que o check-in começa num estúdio fotográfico. No Lenscape Coterie, a fotografia acompanha toda a estadia: está na receção, nos corredores e nos quartos, onde substitui boa parte da decoração. O novo hotel de cinco estrelas abriu em julho, junto ao Largo Actor Dias, e convida os hóspedes a descobrir Portugal através de imagens, com o Douro e a Ponte Luís I sempre em pano de fundo.
Este é o primeiro hotel da Coterie Collection, uma nova marca portuguesa de boutique hotels criada por Ingrid Koeck e João Pedro Tavares, proprietários do grupo Torel Boutiques. O lançamento da nova insígnia não significa, porém, um afastamento da Torel Boutiques. Em junho, o grupo inaugurou no Porto uma nova unidade Torel Private Collection e continua a expandir esse portefólio. A Coterie nasceu para explorar uma linguagem diferente e conquistar outro perfil de viajante.
“Não pretendíamos lançar apenas mais uma marca de hotéis de luxo. Queríamos um boutique hotel que combinasse lifestyle, autenticidade e imersão na arte e cultura local”, explica à NiP Ingrid Koeck. O objetivo passa por atrair um público mais jovem, cosmopolita e atento ao design, mantendo o posicionamento de cinco estrelas. “Complementa o que já existe, sem competir com os hotéis atuais.”
A experiência adquirida na Torel Boutiques permitiu transportar para este projeto a aposta em hotéis de pequena escala, edifícios com identidade e conceitos que cruzam alojamento, arte e gastronomia. Também voltaram a trabalhar com colaboradores habituais, entre eles Isabel Sá Nogueira, responsável pelas áreas comuns do Lenscape e presença frequente nos projetos da marca.
O próprio nome Coterie remete para um círculo restrito de pessoas reunidas por interesses e sensibilidades comuns, um conceito historicamente ligado a comunidades culturais e criativas. O Porto foi escolhido para a estreia devido ao património, à comunidade artística e à crescente projeção internacional. “Foi uma escolha natural pela sua cena cultural vibrante, comunidade criativa dinâmica e perfil internacional crescente. É o palco ideal para lançar a Coterie”, afirma Ingrid.
Em vez de ocupar um único edifício de grande dimensão, o hotel distribui-se por vários imóveis junto ao Largo Actor Dias, numa solução que preserva a escala da praça e reparte os quartos por diferentes volumes. Os fundadores esclarecem, no entanto, que não são proprietários dos edifícios e, por isso, não revelam o investimento feito na recuperação.
A localização acabou por influenciar todo o conceito. Apesar de estar no centro da cidade, o hotel fica protegido do trânsito mais intenso e esconde um jardim romântico em socalcos, com recantos resguardados e vista para a Ponte Luís I. Foi desta relação com a paisagem que nasceu o nome Lenscape, uma junção das palavras inglesas “lens”, lente, e “landscape”, paisagem.
“Acreditamos que Portugal é um país de histórias sem fim. A localização, emoldurada pela vista sobre o rio e a ponte, inspirou-nos a descobrir o País através de uma moldura”, explica a fundadora.

O hotel abriu com 39 quartos, suites e estúdios, embora estejam previstas no futuro 52 unidades de alojamento. Todos os espaços foram desenhados pelo Studio Christian Haas, liderado pelo designer alemão que vive e trabalha no Porto. As diferentes tipologias receberam nomes como Desejo, Saudade e Viagem, associados às emoções e memórias que as imagens pretendem despertar.
Nos interiores, o desenho contemporâneo cruza-se com o trabalho de artesãos portugueses. Haas criou apliques em porcelana, roupeiros, bancos, mesas e estofos em colaboração com produtores nacionais. A decoração inclui ainda camas Duxiana, interruptores e tomadas da Jung, peças da Viúva Lamego e candeeiros em cerâmica da Brâmica, desenvolvidos com a artista Teresa Branco.
As fotografias presentes nos quartos são assinadas por Luís Espinheira e Inês Silva Sá. Nos corredores e zonas de circulação encontram-se trabalhos de Luís Ferraz e Carlos Vieira. A curadoria procurou equilibrar o olhar de fotógrafos portugueses, profundamente ligados ao território, com a perspetiva internacional de Christian Haas.
“Mais do que a nacionalidade, o principal critério foi a capacidade de cada profissional contribuir para uma narrativa autêntica sobre Portugal”, sublinha Ingrid. Segundo a responsável, os artistas portugueses garantem uma ligação à identidade e aos detalhes culturais, enquanto a experiência internacional permite reinterpretá-los de forma contemporânea.
Fora dos quartos, a piscina exterior e o jacuzzi ocupam uma zona mais resguardada do jardim, rodeada por materiais naturais e vegetação. No rooftop, a vista estende-se sobre o Douro, a Ponte Luís I e a Muralha Fernandina, um cenário pensado para prolongar o final da tarde com um copo na mão. O hotel disponibiliza ainda receção e serviço de quartos durante 24 horas, pequeno-almoço, Wi-Fi, lavandaria, transporte para o aeroporto e estacionamento com valet, mediante um custo adicional.
O projeto ainda não está concluído. Além das 13 unidades de alojamento previstas para uma fase posterior, a Coterie vai abrir um spa num edifício histórico contíguo ao hotel. O espaço de bem-estar estará também acessível a clientes externos. Está igualmente prevista a abertura de um segundo conceito de restauração.
A primeira aposta gastronómica chama-se Cucina di Toscani e assinala a estreia de Vítor Matos na cozinha italiana. O chef português com mais estrelas no Guia Michelin – atualmente detentor de seis estrelas –, trabalha em conjunto com o chef residente Carlos Marques numa carta inspirada em receitas tradicionais, preparadas com produtos italianos, do azeite aos enchidos e aos queijos.
O restaurante presta igualmente homenagem a Oliviero Toscani, fotógrafo italiano conhecido pelas campanhas da Benetton. O conceito inspira-se sobretudo na ligação do artista a Portugal e numa série fotográfica dedicada às burras do meio rural português.
A decoração continua a desenvolver a linguagem visual do hotel. Isabel Sá Nogueira desenhou um teto em vidro colorido que projeta tons quentes sobre a sala, numa referência aos filtros fotográficos. Uma instalação de espelhos côncavos e convexos altera a perceção do espaço e reforça a ideia de enquadramento. À mesa chegam pizzas, massas, enchidos, queijos e um tiramisù preparado segundo a receita tradicional.
A intenção passa por fazer do Cucina di Toscani um destino autónomo e não apenas o restaurante do hotel. “Será tratado como uma marca e não apenas como um ‘restaurante dentro do hotel’. Queremos tornar a experiência gastronómica cultural e social e não apenas um serviço”, explica Ingrid.
As tarifas variam consoante a época, a ocupação e a tipologia escolhida. Nas plataformas de reservas consultadas, os preços começavam entre 180€ e 200€ por noite para duas pessoas, com pequeno-almoço incluído, embora possam aumentar nas suites e durante os períodos de maior procura.
Depois da estreia no Porto, os fundadores ainda não revelam onde abrirá o próximo hotel da Coterie Collection. Para já, a nova marca apresenta-se com 39 quartos, todos pensados para mostrar Portugal através da fotografia, tendo o Douro e a Ponte Luís I como cenário permanente.







