João Brito estava atrasado para um treino quando entrou naquele ciclo que tantos condutores conhecem: passou pelo destino, não encontrou estacionamento e começou a dar voltas pelas ruas à procura de um lugar. Chegou ainda mais tarde, mas saiu da experiência com a ideia que daria origem à Dryvo, uma aplicação portuguesa que quer funcionar como uma espécie de Waze do estacionamento.
O episódio aconteceu em novembro de 2024, embora o problema já se repetisse há muito. “Usamos tecnologia para escolher o percurso mais rápido, evitar trânsito e encontrar praticamente qualquer lugar, mas continuamos a chegar ao destino sem saber onde podemos estacionar”, conta o portuense de 27 anos à NiP.
João nasceu no Porto e seguiu um percurso distante das startups tecnológicas. É licenciado em Educação Física e Desporto pela Universidade da Maia, começou a ensinar taekwondo a miúdos em 2015 e trabalha como personal trainer desde 2022. Pelo meio, criou uma loja online, a primeira experiência a gerir um projeto próprio e a lidar diretamente com clientes.
Apesar de não ter formação em tecnologia ou mobilidade, percebeu que o estacionamento era um problema com dimensão suficiente para justificar uma solução. Todos os dias, residentes, trabalhadores e visitantes perdem tempo e combustível às voltas pelas cidades, muitas vezes depois de uma viagem em que todas as outras etapas foram planeadas ao minuto. “A Dryvo representa a junção dessa vontade de construir algo com a ambição de resolver um problema que afeta diariamente milhões de condutores”, explica.
Entre a ideia e o lançamento da aplicação passou cerca de um ano e meio. João começou por estudar as soluções existentes e perceber que informação seria realmente útil para quem conduz. Seguiram-se o mapeamento das zonas, o desenho da experiência de utilização, o desenvolvimento tecnológico e várias rondas de testes.
O maior desafio estava na própria natureza do estacionamento. Um lugar pode ficar livre num minuto e ser ocupado no seguinte, sem que exista uma fonte centralizada capaz de acompanhar todas essas mudanças. A equipa teve, por isso, de cruzar dados cartográficos, padrões históricos, características de cada zona e informações enviadas pela comunidade.
“Foi necessário perceber como transformar um fenómeno tão variável numa informação simples e útil”, recorda. “Passámos por várias versões até chegarmos a uma aplicação suficientemente simples para que qualquer pessoa consiga abrir o mapa, escolher uma zona e perceber rapidamente onde poderá estacionar.”

Por detrás da Dryvo está uma equipa liderada por João Brito, responsável pela visão, produto e estratégia; João Pedro Coelho, fundador da aplicação de exploração urbana Urbexplore, é o responsável tecnológico; e João Pedro Leite, cofundador e antigo diretor de operações da NDrive, acrescenta experiência nas áreas da mobilidade e navegação. A equipa conta ainda com Hugo Martins, responsável pelo desenvolvimento web e pelas ferramentas de mapas, Cláudia Moreira, que gere a relação com os utilizadores, e Francisco Beça, também com experiência na NDrive, que assume o design de produto.
O projeto foi lançado oficialmente a 1 de agosto e está incubado na UPTEC, estrutura ligada à Universidade do Porto, onde teve acesso a mentoria, acompanhamento e contacto com outros empreendedores e potenciais parceiros.
Na prática, o utilizador abre a aplicação, pesquisa o destino ou percorre o mapa para consultar as zonas onde pode estacionar. A informação disponível permite perceber se o estacionamento é gratuito ou pago, conhecer os horários e os preços, consultar a capacidade estimada e saber qual a probabilidade de encontrar um lugar. Quando existe uma indicação recente de outro condutor, a aplicação pode ainda mostrar a disponibilidade reportada em tempo real.
Depois de escolher uma zona, basta carregar no botão das direções. As coordenadas são enviadas para o Waze, Google Maps ou Apple Maps, conforme a preferência do utilizador. A Dryvo não obriga a seguir uma única sugestão: permite comparar várias ruas e decidir qual oferece a melhor combinação entre distância, preço e probabilidade de encontrar lugar.
A participação da comunidade é uma das peças centrais da aplicação. Em cerca de dois segundos, um condutor consegue indicar quantos lugares livres viu ao passar por determinada zona ou ao sair de um estacionamento. Também pode corrigir capacidades, sinalizar áreas que já não existem e desenhar novas zonas através do site, como lugares junto de casa ou do trabalho que ainda não aparecem no mapa.
Como a validade destes dados é curta, um reporte recente tem mais peso do que outro antigo. A plataforma cruza ainda várias contribuições, o histórico do local e o comportamento dos utilizadores para reduzir o impacto de informações erradas.
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Quem ajuda recebe Dryvo Coins e pontos de experiência, sobe de nível, cria sequências de participação e constrói uma reputação dentro da comunidade. “Queremos que reportar seja rápido, útil para quem vem a seguir e também recompensador para quem contribui”, afirma João. No futuro, essa reputação poderá desbloquear benefícios ou funcionalidades específicas.
A aplicação começou pelo Porto e pela Maia, duas cidades próximas da equipa, onde era mais fácil testar os dados no terreno. Entretanto, chegou a Lisboa e Felgueiras. Já ultrapassou os 2.300 utilizadores e reúne informação sobre mais de 200 mil lugares de estacionamento nas quatro cidades.
Segundo João, os primeiros comentários destacam a possibilidade de preparar o estacionamento antes de sair de casa e descobrir alternativas até então desconhecidas. As críticas também levaram a alterações na aplicação. Foi a própria comunidade que alertou para a necessidade de distinguir melhor um lugar acabado de reportar, uma previsão calculada pelo sistema e a capacidade total de uma zona.
A Dryvo está disponível gratuitamente para iOS e Android, e a equipa garante que pretende manter livre o acesso à função principal.
Até ao final de 2026, o objetivo é chegar aos dez mil utilizadores, reforçar a presença na Área Metropolitana do Porto, com Gaia, Matosinhos e Gondomar entre as prioridades, e cobrir Portugal Continental. Depois, João Brito quer levar a tecnologia a outros mercados. “Imaginamos a Dryvo como uma plataforma global de estacionamento, que acompanha o condutor desde a procura do lugar e aprende continuamente com os dados e com a própria comunidade.”







