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Era uma moradia banal em Matosinhos, agora é uma casa de sonho

Entre fachadas envidraçadas e pormenores de luxo, houve espaço para criar uma garrafeira única.

A obra já estava em andamento. Algumas divisões estavam nos acabamentos finais, quando Ricardo Azevedo, numa visita à obra com o cliente, decidiu arriscar. “Senti que já o conhecia e disse-lhe: ‘Esta não é a casa que tu queres.’ E ele perguntou-me o que eu faria. Sentámo-nos numa mesa lá na obra e desenhei o esboço desta casa que vemos agora terminada. Foi um impulso imediato”, explica à NiT o arquiteto.

Assim fez. A obra parou, reordenaram-se objetivos e avançou-se para o projeto ambicioso que é hoje a Casa da Lavra, a pequena localidade junto ao mar, no concelho de Matosinhos. O projeto que arrancou em 2019 e terminou apenas em 2022 foi uma odisseia atribulada.

“O projeto foi encomendado por uma terceira pessoa que começou por intermediar a ligação ao cliente, com todas as dificuldades que isso traz, porque a essência da relação que se cria entre arquiteto e cliente”, explica. “Pensei logo que ia ser difícil.”

A relação acabaria por se estreitar, com bons resultados. O solavanco inicial foi também impulsionado pelo contexto do local, um terreno onde já existia uma casa dos anos 80. “Era uma casa que não tinha um registo significativamente interessante, não tinha valor arquitetónico, apesar de ter uma boa localização e um terreno de boa dimensão.”

O projeto começou verdadeiramente a nascer depois dessa decisão tardia feita em obra, o que obrigou a que a casa se abrisse para o exterior em diversos volumes, quase todos eles transparentes, com paredes totalmente em vidro. Ganhou também um piso superior de onde se consegue avistar o mar.

Pelo caminho, foi preciso perceber as necessidades da família, do casal e das duas filhas. “A casa era muito fechada ao exterior, apesar de estar no meio de um jardim”, explica o arquiteto sobre a expansão e a opção pelas fachadas envidraçadas, que se estendem não só aos novos blocos mas também à sala da antiga casa.

“Sentimos que a casa precisava de ganhar uma nova articulação com o espaço externo. Daí que haja uma ligação direta com o jardim. Quando estamos no interior, sentimos a continuidade entre ambos. E nas noites de verão, é possível fazer essa ligação sem paredes, sem fronteiras.”

Certo é que além da maior ligação ao exterior, a casa expandiu-se de uns 280 metros quadrados iniciais para os 400 metros quadrados atuais, divididos por dois pisos, sendo que o superior conta apenas com um quarto. Na antiga casa, uma área social completamente independente e que liga a outros dois quartos.

Do outro lado, uma zona de lazer, que se abre pela área da piscina até uma sala de jantar totalmente pensada para convívios. E, claro, uma das estrelas do projeto, a garrafeira cuja estrutura se avista do exterior. “Houve também um foco grande na sala dotada de várias áreas, até porque é uma casa sempre cheia de amigos. É uma sala de estar exterior, com cozinha, que pretende um ambiente mais informal, é onde a família tem um compromisso mais descomprometido.”

“A garrafeira é um dos momentos centrais da casa”, frisa também Ricardo Azevedo. “É um volume orgânico de madeira, com a proteção da natureza que o envolve.” Na parede surge também um rasgo inferior, em vidro, que abre o espaço para o jardim, fazendo com que “a casa ande sempre à procura de pedaços do jardim para que façam parte dela”. A porta da garrafeira é uma peça do escultor Paulo Neves e um de quatro momentos em que a escultura se assume como elemento integral da casa, no interior e exterior.

O jardim, demarcado por zonas bem vincadas, é também fundamental. “Faz parte da sensibilidade da pessoa, da sua criatividade e vivência”, nota. Outro elemento importante? A luz. “Não só a luz natural, porque é fundamental para dar leveza, porque retira peso à matéria, mas é também essencial para a conceção física que a casa acaba por assumir.”

Depois, à vista, vão saltando outros pormenores, como o hall de entrada isolado com vidros curvos. “Os cantos curvam-se para não terem um fim em si próprio. É onde a casa começa, onde se convida quem chega a ter essa primeira emoção, a primeira sensação do espaço. E essa sensação é dada pelo tal volume aberto que nos faz estar dentro e fora em simultâneo.”

Quanto a materiais, predominam três: o vidro, o ferro e o zinco. Depois surgem elementos texturados, dos pavimentos em madeira aos mármores que se ligam “às texturas presentes no jardim”, entre a areia, gravilha e erva.

“Ainda no outro dia estive com o cliente, e disse-me que a melhor coisa que lhe aconteceu foi esse desenho, feito naquele dia na obra”, repara o arquiteto. “Não que estivesse insatisfeito com o primeiro projeto, mas foi a partir daí que conseguiu efetivamente transformar a casa onde vive. Fazer com que tudo fizesse sentido.”

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