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Este bizarro palacete abandonado no Porto tem “a decoração mais estranha de sempre”

A urban explorer Rita Constantino visitou este edifício do século XVI e ficou chocada com o que encontrou no interior.
É uma explosão de cores.

Quando, em fevereiro de 2022, a guia turística Rita Constantino rumou ao distrito do Porto para “descobrir” um palacete abandonado, pouco ou nada sabia sobre a sua história. A “arquitetura estranha”, com tetos e paredes de todas as cores, deixaram a urban explorer (nome atribuído aos exploradores de locais abandonados) intrigada. Tanto que decidiu regressar ao palácio em julho — e encontrou pormenores tão interessantes como bizarros sobre o peculiar edifício. 

Rita sempre foi apaixonada por arte e património e começou a explorar sítios abandonados aos 16 anos — agora tem 29 —, mas nunca tinha entrado num palácio tão antigo. Datado de 1585, o edifício foi mandado construir por Filipe II de Espanha, pouco depois do desaparecimento do rei D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir.

“Supostamente ia ser um arquivo, um género de uma biblioteca na cidade do Porto, mas tal nunca chegou a acontecer. Caiu em mãos de privados e foi passando de geração em geração”, começa por contar à NiT.

Existiram inúmeros proprietários, maioritariamente portugueses, que foram deixando o seu rasto neste local. Chegou a ser casa de um general, um fidalgo, um poeta, um advogado e um famoso pintor, Henrique Pousão. atualmente, está nas mãos de um historiador: o senhor António.
“O famoso pintor que ali habitou tinha um amor platónico pela imperatriz Elizabeth Baviera, também conhecida por Sisi. A imperatriz era bem mais velha que o pintor e era casada com o imperador austríaco Francisco José I”, diz. Como este era um amor impossível de acontecer, até porque os seus caminhos nunca se cruzaram, o artista pintou e gravou em várias paredes e mobílias o brasão real da família Baviera: 2 leões unidos que formam a letra H.

Henrique acabou por falecer muito novo devido a uma doença pulmonar. Não tendo filhos, ofereceu a propriedade a um dos seus grandes amigos, que a transformou numa pequena pousada. Por ironia do destino, diz-se que a imperatriz chegou a pernoitar no local.

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Atualmente, a propriedade parece um museu de regalias antigas, com um espólio gigante de peças e quadros. O imóvel foi oferecido ao atual dono, António, pelo padrinho, que nunca chegou a ter filhos. “Deu-lhe o palacete e ensinou-lhe o gosto estético da casa. Ainda chegou a viver lá, mas, em 2019, teve que abandonar quando começou a haver fugas de água pelo teto”, explica Rita.

Com o passar dos anos, o edifício foi ficando, inevitavelmente, cada vez mais degradado e sem condições de habitabilidade. O proprietário ainda tentou fazer as obras à maneira dele, mas “foi pior a ementa do que o soneto”. Mudou-se para outra casa, no Porto, e deixou o palacete do século XVI sem vigilância — e rapidamente percebeu que havia muitas pessoas a entrar na casa, sem nunca roubar nada. Só tinham curiosidade, tal como Rita Constantino.

Por fora, parece um edifício banal, de betão, mas “não há palavras para descrever” o que se encontra no interior. “É um sítio muito estranho, por dentro tem cores diferentes em todo o lado. Um dos quartos é verde florescente, a sala é vermelha e amarela, há um corredor com as paredes todas amarelas”, recorda. Parecia, até, que cada uma das divisões tinha sido decorada por pessoas diferentes, com gostos distintos — e talvez tenha sido o caso.

Rita Constantino conta ainda que todos os móveis que se encontrou na propriedade tinham brasões das várias famílias e gerações que foram passando por lá. “É tudo feito à mão, mesmo as pinturas nas paredes. Também existem alguns quadros alemães. A decoração é muito peculiar, cada proprietário decorou-a à sua maneira”, revela. 

É “uma casa portuguesa, mas parece uma casa de estrangeiros”, com um salão principal que mistura detalhes franceses e símbolos celtas. No chão, por exemplo, em frente a uma mesa com velas, foi desenhada uma lira, um instrumento musical muito antigo que remete para antiguidade clássica, e surge em muitas estátuas e pinturas de deuses gregos. “Não tem nada a ver com nada, não há nenhuma orientação específica, é uma confusão de cores”, detalha.

Quando Rita o visitou, o palacete ainda tinha algumas coisas de valor, apesar do proprietário ter guardado as peças mais valiosas num armazém. A urban explorer encontrou ainda um boneco palhaço que começou a andar de um lado para o outro assim que tocou nele. 

O edifício, embora seja grande, tem os corredores tão finos que “acaba por ser um pouco claustrofóbico”. Existe também uma escadaria de madeira, em formato caracol e pintada de vermelho — parece coberta por um tapete de veludo. Rita entrou em seis quartos, sendo que apenas três deles ainda guardavam alguns objetos.

A mansão serviu também como cenário de alguns videoclipes. Há 11 anos, a banda portuguesa Os Azeitonas gravou o videoclipe do tema “Nos desenhos animados”.

Agora, o objetivo do proprietário — um historiador —, é reabilitar o palacete e tentar transformá-lo num pequeno hotel. “Já fez três planos para o recuperar, já tentou falar com o Turismo de Portugal, mas disseram-lhe que não tinham verba para fazer avançar o projeto. São precisos dois milhões de euros para reformar a propriedade”, conta Rita.  Além de recuperar o edifício, pretende comprar um terreno anexo à propriedade para ali construir uma biblioteca, porque o seu espólio inclui mais de 10 mil livros. 

A seguir, carregue na galeria para ver as fotografias que Rita Constantino tirou quando visitou este peculiar palacete no distrito do Porto. 

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