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Foi assim que nasceu a tradição dos martelinhos de São João — há mais de 50 anos

No início, o alho porro era mais usado do que o famoso brinquedo de plástico que hoje anima a cidade. A NiP conta-lhe tudo.
Noite de festa no Porto.

Começam a aquecer-se as brasas e a assar-se as primeiras sardinhas. Ao lado, há um manjerico para marcar a data e um balão de papel pronto para subir aos céus. É mais ou menos assim que o Porto prepara a noite mais longa do ano na cidade, de 23 para 24 de junho, mas há muito para descobrir sobre as tradições de São João.

É bom começar por dizer que este não é o santo padroeiro da cidade — ao contrário do que muitos pensam, mas deixamos isso para outra altura — e que, embora tenha um caráter religioso, a celebração começou antes do nascimento de Cristo ou até de João Batista. A sua origem é pagã e servia para assinalar, entre outros, o solstício de verão.

“A primeira alusão aos festejos populares data já do século XIV, pela mão do famoso cronista do reino, Fernão Lopes. Em 1851, os jornais relatavam a presença de cerca de 25 mil pessoas nos festejos sanjoaninos entre os Clérigos e a Rua de Santo António e, em 1910, um concurso hípico integrado nas comemorações motivou a presença do infante D. Afonso”, conta a autarquia no seu site.

Ao longo dos anos, as tradições do São João no Porto foram ganhando cada vez mais contornos. Em termos culinários, as sardinhas, as bifanas e o caldo verde são os grandes protagonistas desta época do ano. Já no que toca à folia, a fogueira para saltar foi perdendo aficionados com o passar do tempo, tal como o alho porro e o ramo de cidreira deixaram de ser usados apenas pelos homens ou pelas mulheres, respetivamente.

As cascatas estão mais pequenas e perderam alguma expressão. Por sua vez, os balões de papel continuam a encher os céus da cidade — mesmo com todos os avisos dos riscos de incêndio — e o fogo de artifício é o ponto alto da noite, acompanhado pelos inúmeros bailaricos espalhados pela cidade. Ainda assim, há um elemento que falta nesta equação.

Os martelinhos de plástico tornaram-se num dos maiores símbolos do São João e ajudam facilmente a identificar a festa, quer seja dentro do País ou até no estrangeiro. O seu barulho característico e o facto de permitirem a interação entre estranhos — ou conhecidos — que noutras condições nunca se comunicariam assim, faz deles a estrela da festa atualmente. Mas não se pense que esta é uma tradição tão antiga.

Embora já poucos se lembrem de como era o São João sem martelinhos de plástico, a verdade é que esta é uma tradição com menos de 60 anos. Foi em 1963 que o dono da fábrica de brinquedos de plástico Estrela do Paraíso, Manuel António Boaventura, criou aquele que passaria a ser identificado como o martelo de São João.

A fábrica começou inicialmente por ter morada na Rua do Paraíso, no Porto, mudou-se mais tarde para Rio Tinto, em Gondomar, acabando por encerrar em 2012. A história dos martelinhos vem de uma viagem ao estrangeiro na qual Manuel viu um saleiro e pimenteiro que o inspirou a criar um brinquedo em forma de fole, com uma pega e um apito. O objetivo era que aquele fosse um brinquedo barulhento para os mais novos.

Para a Queima das Fitas desse mesmo ano, um grupo de estudantes foi até à fábrica pedir a Manuel o brinquedo mais barulhento que tivesse, ao que o empresário propôs a sua mais recente criação. O objeto fez sucesso na festa dos estudantes e os comerciantes do Porto acabaram por encomendá-lo para as festas do São João, que seriam dali a poucas semanas. Os anos seguintes aumentaram a procura pelo martelinho, que foi destronando o alho porro.

“A venda do produto foi-se intensificando, ano após ano, até que decorridos cerca de cinco anos, o presidente e o vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto consideraram que este brinquedo ia contra a tradição e fizeram uma queixa ao Governador Civil do Porto”, diz no seu site a autarquia de Rio Tinto.

Daqui resultou a proibição de se vender e até de se usar o martelo durante as festividades, o que poderia valer uma multa de 70 escudos a quem transgredisse — um valor bem acima do salário médio da época. Os portuenses não acataram a ordem e continuaram a usar os martelos.

Quando Manuel António Boaventura morreu, no início do século, a produção da fábrica foi decaindo. Em parte, a produção foi afetada também pelos artigos vindos de países como a China, que chegaram ao nosso mercado a preços muito reduzidos.

Atualmente, é possível encontrar martelinhos de vários formatos e tamanhos, disponíveis em quase todos os supermercados e lojas de artigos variados, sendo que os preços também variam.

Se está a preparar tudo para uma noite de folia e até já tem o seu martelinho, carregue na galeria para descobrir formas de ver a cidade de outra perspetiva, que até podem dar jeito na hora de ver o fogo de artifício.

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