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“Miragaia: uma zona encantora para viver”

A portuense Margarida Marques, médica reformada, de 76 anos, recorda a infância feliz na zona onde cresceu.
Fotografia de Porto.

Vivi em Miragaia durante quase 20 anos. Hoje não sei muito bem como é viver lá. O desenvolvimento turístico da zona, a recuperação urbana e do património mudaram bastante. Ainda assim não tenho a menor dúvida de que lá vivi os melhores anos da minha vida.

Acordava e tinha a possibilidade de admirar à minha frente a torre da igreja com seu majestoso sino, o imponente edifício da Alfândega, mas principalmente, um rio de verdes e límpidas águas. Os navios de grande porte subiam e desciam para ancorar no Cais de Gaia e quantas vezes os golfinhos saltitavam a seu lado.

Foi uma infância muito feliz, hoje impossível de encontrar. Os carrinhos de rolamentos desciam a grande velocidade a Rua Tomás Gonzaga e, se a perícia falhasse, a corrida terminava de cara enfarruscada no meio da carvoaria que existia no final da rua.

E as cheias do rio Douro. Uma desgraça para quem via as suas casas comerciais e de habitação serem rapidamente inundadas. Uma situação onde a palavra solidariedade não se ouvia, só se sentia. Mas uma alegria para os mais novos que faziam o caminho para a escola não pelo trajeto mais curto e mais seguro, mas por aquele em que as águas molhassem mais a roupa e o calçado. Uma maravilha. Um puxão de orelhas e uma reprimenda no regresso a casa.

A autora, Margarida Marques.

Tive o privilégio de pertencer a uma família com uma mercearia. Adorava lá ir quase todos os dias para me darem uns rebuçados bem pequeninos — rebuçados de troco. A certa altura, deixei de ser recebida com a cordialidade habitual. É que sorrateiramente metia a mão na tulha do arroz, enchia e colocava na do açúcar. Ou, para variar, feijão ou grão de bico na farinha. Tudo era vendido a granel e pesado em cartuchos de papel castanho, às vezes com riscas de cores vivas.

Na altura dos Santos Populares havia bailaricos privados e públicos. Na noite de S. João, era bailar até o sol nascer e caminhar até à Foz para o primeiro banho de mar.

Foi bom viver e crescer em Miragaia. Tive uma infância muito feliz. Atualmente, quase ninguém da minha época lá vive. Muitas vezes passo por Miragaia e fico longo tempo a olhar para aqueles locais, hoje bem diferentes, quase irreconhecíveis, mas bem marcados nas minhas memórias.

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