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Pedro morreu, mas a mãe continua a falar com ele todos os dias no Twitter

Assunção responde a cada uma das mensagens agendadas pelo filho, num diário que ultrapassa a barreira da morte.
Pedro tinha 43 anos (Foto: Facebook)

Ao longo de dois anos, Assunção Fernandes foi registando um diário íntimo na rede social, ali à vista de todos, sem que ninguém reparasse. Um dia alguém reparou e a história comovente explodiu e emocionou milhares pelo Twitter fora.

Foi algo inesperado, já que esperava que “as conversas fossem descobertas, a não ser por amigos íntimos”, revela a portuguesa natural de Bragança em declarações à “BBC”. Mas tudo começou em 2019 com a morte do filho, Pedro, vítima de cancro. Tinha 43 anos, numa altura da vida em que era funcionário público em Braga.

Para trás deixou um sistema automático de publicação de mensagens no Twitter. Todos os dias, da sua conta, sai um emoji de um meio de transporte porque, segundo o próprio, eram os emojis menos usadoss em todo o mundo. “O emoji menos utilizado não pode ser um meio de transporte”, escreveu em 2018. “Batam-se pelas lutas justas.”

“Acredito que ele fez isso sabendo que continuaria a publicar coisas mesmo após a morte”, explica o irmão de Pedro à “BBC”. E assim aconteceu. Assunção, que aprendeu com Pedro a utilizar o Twitter, começou a responder a cada uma dessas mensagens, numa espécie de diário público que relata a dor de perder um filho.

Assoberbada com as centenas de mensagens que foi recebendo, assim que a história se tornou viral no Twitter, foi revelando alguns pormenores sobre o tema. “Para atenuar a minha dor, e não podendo falar nele em casa por causa do meu marido, aproveitei a página dele do Twitter onde ele tinha um tuíte automático”, explicava, enquanto agradecia aos utilizadores que confessavam ter chorado ao percorrer o perfil.

“Tiraram-te daqui hoje. Não importa. Continuo a escrever na mesma, respondendo ao tuite. Descobriram o nosso cantinho, muitas pessoas emocionaram-se e expressaram a sua solidariedade. Aconteceu amor e união, os nossos objetivos de vida.”

Pedro e a mãe, Assunção

A mãe de 69 anos revela que Pedro “sonhava com um mundo sem barreiras”. “Nunca, desde bem pequeno, admitia as palavras normal ou anormal para classificar as pessoas. Ele dizia que cada indivíduo era diferente e era assim que devíamos aceitar e respeitar”, conta, enquanto mantém a intenção de continuar a usar o Twitter como forma de chegar até ao filho, mesmo depois da morte. E, pelo caminho, concretizar os objetivos de ambos.

“Tanto desconhecido a manifestar-se com amor. É tão lindo ver as pessoas boas a sensibilizarem-se com um grande amor e a seguir os mesmos passos”, escreve numa das mais recentes mensagens no perfil do filho. “Fiquei sem a tua presença mas sinto que partiste com a missão que começaste aqui.”

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